Sânscrito: A vogal “o” é ditongo?

10/Setembro/2008

Anteontem recebi um e-mail com este título: “A vogal “o” é ditongo?”

A dúvida do leitor se baseava nesta postagem na qual eu publiquei uma tabela que continha a declinação “dos ditongos -ai, -au e -odo sânscrito clássico. A dúvida é justa e a explicação é (ao meu ver) divertida. Vamos lá:

Há uma regra no sânscrito que diz que a união das vogais “a+u” gera a vogal “o”. Isto é, a língua sânscrita evitava a formação do ditongo “au” apagando o ditongo e colocando a vogal “o” que, na nossa maneira de ver, não é um ditongo. Mas na maneira de ver dos antigos gramáticos do sânscrito se a vogal “o” era o resultado do ditongo “au” ela só poderia ser, também, um ditongo. É por isso que você pode encontrar a sílaba primordial “ॐ” (aquela que aparece em todos os mantras) muitas vezes transcrita como “om” mas, algumas vezes, transcrita como “aum“.

É interessante notar que essa regra, descrita por Pāṇini – na Índia!!! – no século IV a.C foi aplicada na passagem do latim para o português; Exemplos dessa regra estão nas expressões touro e ouro que nós, atualmente, pronunciamos “tôro” e “ôro“, respectivamente. Vale lembrar que as formas latinas para estas palavras eram taurus e aurum e estão preservadas em adjetivos¹ como “taurino” e “tempos aureos” (isto é, de ouro)

Portanto do latim para o português temos o seguinte processo:

taurus > touro > “tôro”

aurum > ouro > “ôro”

paucus > pouco > “poco”

raucus > rouco > “rôco”

pauper > pobre

Na verdade, nem precisamos ir tão longe para verificar que este processo ainda se aplica em algumas palavras do português atual. Não é incomum ouvirmos a forma “otoridade” no lugar de “autoridade ou “restorante” no lugar de “restaurante”.

Portanto temos ainda hoje em português coisas como:

restaurante > restorante

autoridade > otoridade

É bacana ver que uma regra que foi descrita na Índia há mais de dois mil e quatrocentos anos ainda é aplicada na nossa língua. Ainda que para nós “o” não seja um ditongo!

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¹Ah, e o protetor auricular se coloca na orelha! =)

**Para as regras de eufonia vocálica (ou samdhi vocálico) do sânscrito, vale ler esta postagem.


Nominativo-Acusativo X Ergativo-Absolutivo

28/Abril/2008

Hoje saí com uma colega esperantista (a Tatiana) e prometi passar pra ela minha análise morfológica do esperanto (publicada aqui em 02/2008). Quando entrei no blogue vi algumas críticas efetuadas por um esperantista sobre minha análise.

Como há muito tempo eu não atualizo o blogue e como as críticas foram justas e me fizeram repensar minha análise da morfologia verbal do esperanto, volto a escrever aqui depois desses meses todos.

A respeito das relações morfológicas que um verbo pode estabelecer com seus argumentos (isto é, com o sujeito e o predicado) eu havia escrito o seguinte:

“No que diz respeito às relações que o verbo estabelece com os argumentos, a marcação morfológica desta relação pode aparecer:

1. Apenas no núcleo (head-marking)

2.Apenas no elemento dependente do verbo (dependent-marking)

3. No núcleo e no elemento dependente.”

Entendamos como “núcleo” o verbo e como “argumentos” o sujeito e o(s) predicado(s) verbais. Então, as línguas do mundo têm 3 maneiras de marcar a relação entre verbo e argumentos: só no verbo, só nos argumentos ou em ambos.

Até aqui, tudo bem!

Em seguida, eu havia comparado a marcação morfológica do português, do latim, do japonês e do esperanto. É este o ponto que eu acho que merece ser melhor elucidado. Eu havia escrito exatamente isto aqui, ó:

“Em Português, a marcação ocorre no núcleo:

Os homens viram o menino. head-marking

Em Latim, a marcação ocorria tanto no núcleo (verbo) como nos elementos dependentes (argumentos):

Uiri puerum uiderunt head-marking & dependent-marking

Em Esperanto, a marcação morfológica aparece apenas nos argumentos, como ocorre em Japonês e Norueguês:

La viro vidas la knabon dependent-marking

Otoko-no hito-ga kotom-o mita dependent-marking”

Não é que o que eu tenha escrito seja mentira. É fato que a marcação em português ocorre apenas no verbo¹, em latim ocorria no verbo e nos argumentos (os casos de declinação, lembram?), já em esperanto e em japonês os verbos não têm marca de pessoa e, portanto, a marcação morfológica só pode ocorrer nos argumentos. Tudo isso é verdade!

Mas tudo isso dá a impressão de que a morfologia do Esperanto escapa à morfologia das línguas indo-européias e se aproxima demais do japonês. A verdade é que a morfologia do esperanto, no que diz respeito às relações entre verbos e argumentos, é puramente indo-européia.

E é isto que eu pretendo mostrar agora:

Há muitas formas de estabelecer a relação entre o verbo e seus argumentos. As línguas indo-européias utilizam um sistema chamado “Nominativo-Acusativo” e, através deste sistema, separam sistematicamente o “sujeito” dos “objetos” nas frases. A forma através da qual cada língua indo-européia faz isto pode variar, isto é, se a língua vai fazer a marcação só no verbo (como em português), só no argumento (como em esperanto) ou nos dois (como em latim) não altera em nada o sistema “Nominativo-Acusativo”. Noutras palavras: não importa como, as línguas indo-européias vão dar um jeito de diferenciar o sujeito do objeto em uma frase!

Aí vem alguém e diz: “Mas isto é óbvio, toda língua é assim!”

E eu digo: “Não, não é!”

Um outro sistema possível é o “Ergativo-Absolutivo”, o exemplo “mais famoso” de idioma que utiliza este sistema é o Basco. (Há, até, um link no wikipedia sobre isto em português).

Como os exemplos em basco são “acessíveis” e como os exemplos em línguas indígenas brasileiras são menos comuns, vou usar exemplos em Karo (reparem na marca de primeira pessoa, grifada nos exemplos):

o-ket-t

1s-dormir-indicativo

“eu dormi”

ηa o-’top-t

ela 1s-ver-indicativo

“ela me viu”

Conforme podemos verificar, a primeira frase tem um verbo intransitivo (dormir) cujo sujeito é {o-}, siginificando “primeira pessoa, eu”

A segunda frase tem um verbo transitivo (ver), cujo objeto direto é o mesmo {o-} significando também “primeira pessoa, eu”.

O sistema nesta língua não opõe, como podemos ver, o sujeito ao objeto. A língua utiliza o mesmo morfema para o sujeito do verbo intransitivo e o objeto do verbo transitivo. Este sistema chama-se “Ergativo-Absolutivo” e a língua Karo está marcando o “absolutivo” ao fazer isto com o morfema {o-}. Aplicando hipoteticamente este sistema ao português, diriamos algo como “Me dormi” utilizando a morfologia do objeto (me) como sujeito de um verbo intransitivo (dormir).

Tendo demonstrado outro sistema possivel de marcação morfológica da relação “verbo-argumentos”, vale a pena voltar ao esperanto-português-latim.

Em primeiro lugar deve ficar claro que essas três línguas vão, de uma maneira ou de outra, separar o sujeito e o objeto na sentença. Apenas a maneira através da qual isto se realiza é que é distinta nas três línguas.

Em latim, a marcação morfológica que separa o sujeito e o objeto ocorre nos argumentos (através dos casos de declinação). Ocorre, ainda, no verbo, que sempre concorda com o sujeito.

O Latim marcava, portanto, o NOMINATIVO e o ACUSATIVo nos argumentos e reforçava o NOMINATIVO no verbo.

Na passagem do latim para o português os casos de declinação foram se perdendo e, atualmente, as principais formas de separar o sujeito do objeto em português são:

1- A ordem da sentença, que tende a ser SUJEITO-VERBO-OBJETO: “Tu matastes o boi” e não “Matastes o boi tu”

2- O verbo, que concorda com o sujeito: “Tu matastes o boi” x “O boi te matou

O português marca, portanto, o NOMINATIVO através do verbo (não marca o ACUSATIVO (objeto) em lugar nenhum.

O esperanto não faz marcações no verbo, isto é, em esperanto o verbo não varia concordando com o sujeito. O sujeito também não recebe nenhuma marcação morfologica que indique ser ele o sujeito. Resta o objeto, que recebe o morfema {-n} indicando o caso ACUSATIVO.

Vi mortigis la bovon / Sxi mortigis la bovon / La bovo mortigis min

Você matou o boi / Ela matou o boi / O boi me matou

O esperanto marca, portanto, o ACUSATIVO através do argumento do verbo e não marca o NOMINATIVO (sujeito) em elemento nenhum.

Espero não ter sido complicado e ter demonstrado que, apesar de aparentemente utilizarem regras diferentes, as línguas indo-européias utilizam uma mesma “regrona geral”: diferenciar o sujeito do objeto na sentença. Esta “regrona geral” das línguas indo-européias não é obrigatória em todas as línguas do mundo, como ocorre em Karo (Língua do Tronco Tupi) e em Basco (língua ilhada).²

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¹Na verdade ainda ocorre em português a declinação dos pronomes, mas em português falado até este restinho dos casos latinos está morrendo. =(

² Para mais informações a respeito de genética das línguas, aconselho visitar este site: PROEL


Alguns prefixos verbais em Latim

27/Fevereiro/2008

Um dos modos de formação dos verbos latinos consiste em inserir um prefixo no verbo, alterando seu sentido original.

Eis alguns prefixos freqüentes em Latim:

prefixo

exprime
com companhia
in movimento para dentro
ob oposição, encontro
prae movimento para a frente de
pro movimento para diante
re movimento contrário
sub movimento para baixo
trans movimento para além

Aplicando esses prefixos ao verbo fero (levar, trazer) temos os seguintes resultados em Latim:

prefixo derivado sentido próprio sentido figurado
com confero “amontoar” conferir
in infero “levar para dentro” inferir
ob offero “levar diante” oferecer
prae praefero “levar a diante” preferir
pro profero “levar para diante” proferir
re refero “levar para trás” referir
sub suffero “suportar” sofrer
trans transfero “levar de um lugar para outro” transferir

Como podemos verificar, na passagem do latim para o português o significado dos morfemas prefixais e do verbo fero praticamente se perdeu. Isto é, não há nada em conferir, inferir, oferecer, proferir, preferir e referir que, a princípio, indique a origem do verbo “levar” ou o sentido do prefixo usado na formação verbal!

Ainda bem que sobrou o “transferir” (e o Ronái) pra contar a história!!!  =)

(Os dados foram tirados de um verbete de formações verbais do Latim escrito pelo Paulo Ronái para o “Dicionário Gramatical Globo”.)