Hoje saí com uma colega esperantista (a Tatiana) e prometi passar pra ela minha análise morfológica do esperanto (publicada aqui em 02/2008). Quando entrei no blogue vi algumas críticas efetuadas por um esperantista sobre minha análise.
Como há muito tempo eu não atualizo o blogue e como as críticas foram justas e me fizeram repensar minha análise da morfologia verbal do esperanto, volto a escrever aqui depois desses meses todos.
A respeito das relações morfológicas que um verbo pode estabelecer com seus argumentos (isto é, com o sujeito e o predicado) eu havia escrito o seguinte:
“No que diz respeito às relações que o verbo estabelece com os argumentos, a marcação morfológica desta relação pode aparecer:
1. Apenas no núcleo (head-marking)
2.Apenas no elemento dependente do verbo (dependent-marking)
3. No núcleo e no elemento dependente.”
Entendamos como “núcleo” o verbo e como “argumentos” o sujeito e o(s) predicado(s) verbais. Então, as línguas do mundo têm 3 maneiras de marcar a relação entre verbo e argumentos: só no verbo, só nos argumentos ou em ambos.
Até aqui, tudo bem!
Em seguida, eu havia comparado a marcação morfológica do português, do latim, do japonês e do esperanto. É este o ponto que eu acho que merece ser melhor elucidado. Eu havia escrito exatamente isto aqui, ó:
“Em Português, a marcação ocorre no núcleo:
Os homens viram o menino. → head-marking
Em Latim, a marcação ocorria tanto no núcleo (verbo) como nos elementos dependentes (argumentos):
Uiri puerum uiderunt → head-marking & dependent-marking
Em Esperanto, a marcação morfológica aparece apenas nos argumentos, como ocorre em Japonês e Norueguês:
La viro vidas la knabon → dependent-marking
Otoko-no hito-ga kotom-o mita → dependent-marking”
Não é que o que eu tenha escrito seja mentira. É fato que a marcação em português ocorre apenas no verbo¹, em latim ocorria no verbo e nos argumentos (os casos de declinação, lembram?), já em esperanto e em japonês os verbos não têm marca de pessoa e, portanto, a marcação morfológica só pode ocorrer nos argumentos. Tudo isso é verdade!
Mas tudo isso dá a impressão de que a morfologia do Esperanto escapa à morfologia das línguas indo-européias e se aproxima demais do japonês. A verdade é que a morfologia do esperanto, no que diz respeito às relações entre verbos e argumentos, é puramente indo-européia.
E é isto que eu pretendo mostrar agora:
Há muitas formas de estabelecer a relação entre o verbo e seus argumentos. As línguas indo-européias utilizam um sistema chamado “Nominativo-Acusativo” e, através deste sistema, separam sistematicamente o “sujeito” dos “objetos” nas frases. A forma através da qual cada língua indo-européia faz isto pode variar, isto é, se a língua vai fazer a marcação só no verbo (como em português), só no argumento (como em esperanto) ou nos dois (como em latim) não altera em nada o sistema “Nominativo-Acusativo”. Noutras palavras: não importa como, as línguas indo-européias vão dar um jeito de diferenciar o sujeito do objeto em uma frase!
Aí vem alguém e diz: “Mas isto é óbvio, toda língua é assim!”
E eu digo: “Não, não é!”
Um outro sistema possível é o “Ergativo-Absolutivo”, o exemplo “mais famoso” de idioma que utiliza este sistema é o Basco. (Há, até, um link no wikipedia sobre isto em português).
Como os exemplos em basco são “acessíveis” e como os exemplos em línguas indígenas brasileiras são menos comuns, vou usar exemplos em Karo (reparem na marca de primeira pessoa, grifada nos exemplos):
o-ket-t
1s-dormir-indicativo
“eu dormi”
ηa o-’top-t
ela 1s-ver-indicativo
“ela me viu”
Conforme podemos verificar, a primeira frase tem um verbo intransitivo (dormir) cujo sujeito é {o-}, siginificando “primeira pessoa, eu”
A segunda frase tem um verbo transitivo (ver), cujo objeto direto é o mesmo {o-} significando também “primeira pessoa, eu”.
O sistema nesta língua não opõe, como podemos ver, o sujeito ao objeto. A língua utiliza o mesmo morfema para o sujeito do verbo intransitivo e o objeto do verbo transitivo. Este sistema chama-se “Ergativo-Absolutivo” e a língua Karo está marcando o “absolutivo” ao fazer isto com o morfema {o-}. Aplicando hipoteticamente este sistema ao português, diriamos algo como “Me dormi” utilizando a morfologia do objeto (me) como sujeito de um verbo intransitivo (dormir).
Tendo demonstrado outro sistema possivel de marcação morfológica da relação “verbo-argumentos”, vale a pena voltar ao esperanto-português-latim.
Em primeiro lugar deve ficar claro que essas três línguas vão, de uma maneira ou de outra, separar o sujeito e o objeto na sentença. Apenas a maneira através da qual isto se realiza é que é distinta nas três línguas.
Em latim, a marcação morfológica que separa o sujeito e o objeto ocorre nos argumentos (através dos casos de declinação). Ocorre, ainda, no verbo, que sempre concorda com o sujeito.
O Latim marcava, portanto, o NOMINATIVO e o ACUSATIVo nos argumentos e reforçava o NOMINATIVO no verbo.
Na passagem do latim para o português os casos de declinação foram se perdendo e, atualmente, as principais formas de separar o sujeito do objeto em português são:
1- A ordem da sentença, que tende a ser SUJEITO-VERBO-OBJETO: “Tu matastes o boi” e não “Matastes o boi tu”
2- O verbo, que concorda com o sujeito: “Tu matastes o boi” x “O boi te matou“
O português marca, portanto, o NOMINATIVO através do verbo (não marca o ACUSATIVO (objeto) em lugar nenhum.
O esperanto não faz marcações no verbo, isto é, em esperanto o verbo não varia concordando com o sujeito. O sujeito também não recebe nenhuma marcação morfologica que indique ser ele o sujeito. Resta o objeto, que recebe o morfema {-n} indicando o caso ACUSATIVO.
Vi mortigis la bovon / Sxi mortigis la bovon / La bovo mortigis min
Você matou o boi / Ela matou o boi / O boi me matou
O esperanto marca, portanto, o ACUSATIVO através do argumento do verbo e não marca o NOMINATIVO (sujeito) em elemento nenhum.
Espero não ter sido complicado e ter demonstrado que, apesar de aparentemente utilizarem regras diferentes, as línguas indo-européias utilizam uma mesma “regrona geral”: diferenciar o sujeito do objeto na sentença. Esta “regrona geral” das línguas indo-européias não é obrigatória em todas as línguas do mundo, como ocorre em Karo (Língua do Tronco Tupi) e em Basco (língua ilhada).²
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¹Na verdade ainda ocorre em português a declinação dos pronomes, mas em português falado até este restinho dos casos latinos está morrendo. =(
² Para mais informações a respeito de genética das línguas, aconselho visitar este site: PROEL