Esperanto: Dicionário X Gramática

3/Novembro/2009

Legu esperante tie cxi!

Via de regra aqueles que se interessam por linguística em algum momento ouvem falar do Esperanto e acabam lendo alguma coisa a respeito. Eu ouvi falar do esperanto com uns 16 anos e com uns 17 lá estava eu, cabulando aulas de física para ir à biblioteca do Centro Cultural, onde há um curso de esperanto para autodidatas.  No começo, tudo muito bom, tudo muito simples, 16 regras gramaticais sem exceção que dão conta de um recado que nenhuma outra língua promete dar – mesmo com gramáticas de 500 páginas. É claro que não me tornei um falante exemplar – quem ler minha versão em esperento desta publicação vai notar,  só pelo volume de linhas, que eu não sou tão capaz assim em esperanto - mas eu sou um leitor atento.

E atentei pr’um negócio interessante: há um curso de esperanto no twitter, em espanhol. Sacada muito boa que mistura frases em esperanto e explicações curtas em espanhol, pra ajudar os estudantes. Uma das frases é esta aqui: “Kvar minus naŭ estas minus kvin.”. A tradução é simples: “Quatro menos nove é menos cinco.”

Por mim tranquilo, pelo menos no que diz respeito ao resultado da conta. A gramática esperantista diz o seguinte:

20.1.3 Kondicionalo: US-finaĵo

Kondicionala verbo, verbo kun US-finaĵo, estas uzata por agoj kaj statoj nerealaj, imagaj fantaziaj. US-formo ne montras la tempon de la ago.

Traduzindo:

20.1.3 Condicional: final -US

Verbo condicional, verbo terminado em US, é usado para ações e estados não-reais, imaginários ou fantasiosos. A forma em US (condicional) não demonstra o tempo do verbo.

Claro que fiquei encafifado, afinal, se as regras não permitem exceção no esperanto, minus deveria ser um verbo condicional, como “amaria, faria, mataria, gostaria, teria”, entretanto, pela frase do exemplo, minus não é verbo.

Fui, teimoso, ao dicionário Português-Esperanto, do site lernu.net. Procurando por “menos” ele propõe os termos em esperanto: malpli e minuso. Imaginei que o sujeito no twitter tivesse comido bola. Fui fazer o caminho inverso. Procurei “minus” no dicionário Esperanto-Português, Esperanto-Inglês e Esperanto-Esperanto. E estava ali:

Esperanto-Português: minus → menos (matemática)

Esperanto-Inglês:  minus → minus

Esperanto-Esperanto: minus → “forprenu la sekvantan”; minuso: la signo “-” en kalkulado (8-3=5 ok minus tri estas kvin) (trad: “retire do seguinte”; menos: o sinal “-” em cálculo (8-3=5 oito menos três é cinco)

Tendo explicado todo o problema a uma amiga que faz linguística na USP e já fez um curso de esperanto ela me perguntou: “Afinal, a frase tá certa ou tá errada?”

Pois é: A frase tá certa e tá errada! Tá certa pelo dicionário (minus existe e não é verbo) e errada pela gramática (se a palavra acaba em -us, é verbo). Parece que o esperanto é tão língua quanto qualquer outra, e nem quintentas páginas de gramática dariam conta de todas as regras nem de todas as exceções.



Sânscrito: Quadro Sinóptico do Sistema Verbal

13/Agosto/2008

Pessoal,

Segue um trabalho que busca demonstrar os principais elementos da morfologia dos verbos regulares do Sânscrito. Há também alguns verbos irregulares (matar, fazer, ser/existir e ir) conjugados no presente, no imperfeito, no imperativo e no optativo.

O trabalho está no link ao lado, disponível para download em PDF: Morfologia Verbal

Agradecimentos sinceros à Clarissa Mariano que, além de ter tido a paciência de fazer este trabalho comigo, ainda permitiu sua publicação sem cobrar um centavo de direitos autorais!!! =)

Abraços,

Thiago


Declinação do Sânscrito

24/Maio/2008

Cumprindo uma promessa antiga anexo seis páginas contendo as declinações dos temas vocálicos e consonânticos do sânscrito, além da declinação dos pronomes.

Basta clicar na imagem para que ela seja ampliada.

1-Declinação dos temas vocálicos:

(com gradação: -R, e sem gradação: -a, -i, -u, -aa, -ii, -uu e os ditongos -ai, -au e -o)

2-Declinação dos temas consonânticos sem gradação:

(nomes-raiz, temas em oclusivas, temas em -in, -as e -us)

3-Declinação dos pronomes:

3a – (pronomes pessoais: “eu” e “tu” e demonstrativos: “ele, este, esse”)

3b- (YAD: “o que, o qual, cujo” e o interrogativo KAS: “quem”)

(Nesta página tem também um resumo das funções fundamentais do nome na frase sânscrita)

4- Declinação dos temas consonânticos com gradação:

4a- (temas em -an e -ant)

4b – (temas em -vaams, -(i)yaamns, -(i)yas e -añc)

(Desculpem o colorido, meu scanner ficou meio maluco!)


Nominativo-Acusativo X Ergativo-Absolutivo

28/Abril/2008

Hoje saí com uma colega esperantista (a Tatiana) e prometi passar pra ela minha análise morfológica do esperanto (publicada aqui em 02/2008). Quando entrei no blogue vi algumas críticas efetuadas por um esperantista sobre minha análise.

Como há muito tempo eu não atualizo o blogue e como as críticas foram justas e me fizeram repensar minha análise da morfologia verbal do esperanto, volto a escrever aqui depois desses meses todos.

A respeito das relações morfológicas que um verbo pode estabelecer com seus argumentos (isto é, com o sujeito e o predicado) eu havia escrito o seguinte:

“No que diz respeito às relações que o verbo estabelece com os argumentos, a marcação morfológica desta relação pode aparecer:

1. Apenas no núcleo (head-marking)

2.Apenas no elemento dependente do verbo (dependent-marking)

3. No núcleo e no elemento dependente.”

Entendamos como “núcleo” o verbo e como “argumentos” o sujeito e o(s) predicado(s) verbais. Então, as línguas do mundo têm 3 maneiras de marcar a relação entre verbo e argumentos: só no verbo, só nos argumentos ou em ambos.

Até aqui, tudo bem!

Em seguida, eu havia comparado a marcação morfológica do português, do latim, do japonês e do esperanto. É este o ponto que eu acho que merece ser melhor elucidado. Eu havia escrito exatamente isto aqui, ó:

“Em Português, a marcação ocorre no núcleo:

Os homens viram o menino. head-marking

Em Latim, a marcação ocorria tanto no núcleo (verbo) como nos elementos dependentes (argumentos):

Uiri puerum uiderunt head-marking & dependent-marking

Em Esperanto, a marcação morfológica aparece apenas nos argumentos, como ocorre em Japonês e Norueguês:

La viro vidas la knabon dependent-marking

Otoko-no hito-ga kotom-o mita dependent-marking”

Não é que o que eu tenha escrito seja mentira. É fato que a marcação em português ocorre apenas no verbo¹, em latim ocorria no verbo e nos argumentos (os casos de declinação, lembram?), já em esperanto e em japonês os verbos não têm marca de pessoa e, portanto, a marcação morfológica só pode ocorrer nos argumentos. Tudo isso é verdade!

Mas tudo isso dá a impressão de que a morfologia do Esperanto escapa à morfologia das línguas indo-européias e se aproxima demais do japonês. A verdade é que a morfologia do esperanto, no que diz respeito às relações entre verbos e argumentos, é puramente indo-européia.

E é isto que eu pretendo mostrar agora:

Há muitas formas de estabelecer a relação entre o verbo e seus argumentos. As línguas indo-européias utilizam um sistema chamado “Nominativo-Acusativo” e, através deste sistema, separam sistematicamente o “sujeito” dos “objetos” nas frases. A forma através da qual cada língua indo-européia faz isto pode variar, isto é, se a língua vai fazer a marcação só no verbo (como em português), só no argumento (como em esperanto) ou nos dois (como em latim) não altera em nada o sistema “Nominativo-Acusativo”. Noutras palavras: não importa como, as línguas indo-européias vão dar um jeito de diferenciar o sujeito do objeto em uma frase!

Aí vem alguém e diz: “Mas isto é óbvio, toda língua é assim!”

E eu digo: “Não, não é!”

Um outro sistema possível é o “Ergativo-Absolutivo”, o exemplo “mais famoso” de idioma que utiliza este sistema é o Basco. (Há, até, um link no wikipedia sobre isto em português).

Como os exemplos em basco são “acessíveis” e como os exemplos em línguas indígenas brasileiras são menos comuns, vou usar exemplos em Karo (reparem na marca de primeira pessoa, grifada nos exemplos):

o-ket-t

1s-dormir-indicativo

“eu dormi”

ηa o-’top-t

ela 1s-ver-indicativo

“ela me viu”

Conforme podemos verificar, a primeira frase tem um verbo intransitivo (dormir) cujo sujeito é {o-}, siginificando “primeira pessoa, eu”

A segunda frase tem um verbo transitivo (ver), cujo objeto direto é o mesmo {o-} significando também “primeira pessoa, eu”.

O sistema nesta língua não opõe, como podemos ver, o sujeito ao objeto. A língua utiliza o mesmo morfema para o sujeito do verbo intransitivo e o objeto do verbo transitivo. Este sistema chama-se “Ergativo-Absolutivo” e a língua Karo está marcando o “absolutivo” ao fazer isto com o morfema {o-}. Aplicando hipoteticamente este sistema ao português, diriamos algo como “Me dormi” utilizando a morfologia do objeto (me) como sujeito de um verbo intransitivo (dormir).

Tendo demonstrado outro sistema possivel de marcação morfológica da relação “verbo-argumentos”, vale a pena voltar ao esperanto-português-latim.

Em primeiro lugar deve ficar claro que essas três línguas vão, de uma maneira ou de outra, separar o sujeito e o objeto na sentença. Apenas a maneira através da qual isto se realiza é que é distinta nas três línguas.

Em latim, a marcação morfológica que separa o sujeito e o objeto ocorre nos argumentos (através dos casos de declinação). Ocorre, ainda, no verbo, que sempre concorda com o sujeito.

O Latim marcava, portanto, o NOMINATIVO e o ACUSATIVo nos argumentos e reforçava o NOMINATIVO no verbo.

Na passagem do latim para o português os casos de declinação foram se perdendo e, atualmente, as principais formas de separar o sujeito do objeto em português são:

1- A ordem da sentença, que tende a ser SUJEITO-VERBO-OBJETO: “Tu matastes o boi” e não “Matastes o boi tu”

2- O verbo, que concorda com o sujeito: “Tu matastes o boi” x “O boi te matou

O português marca, portanto, o NOMINATIVO através do verbo (não marca o ACUSATIVO (objeto) em lugar nenhum.

O esperanto não faz marcações no verbo, isto é, em esperanto o verbo não varia concordando com o sujeito. O sujeito também não recebe nenhuma marcação morfologica que indique ser ele o sujeito. Resta o objeto, que recebe o morfema {-n} indicando o caso ACUSATIVO.

Vi mortigis la bovon / Sxi mortigis la bovon / La bovo mortigis min

Você matou o boi / Ela matou o boi / O boi me matou

O esperanto marca, portanto, o ACUSATIVO através do argumento do verbo e não marca o NOMINATIVO (sujeito) em elemento nenhum.

Espero não ter sido complicado e ter demonstrado que, apesar de aparentemente utilizarem regras diferentes, as línguas indo-européias utilizam uma mesma “regrona geral”: diferenciar o sujeito do objeto na sentença. Esta “regrona geral” das línguas indo-européias não é obrigatória em todas as línguas do mundo, como ocorre em Karo (Língua do Tronco Tupi) e em Basco (língua ilhada).²

——

¹Na verdade ainda ocorre em português a declinação dos pronomes, mas em português falado até este restinho dos casos latinos está morrendo. =(

² Para mais informações a respeito de genética das línguas, aconselho visitar este site: PROEL


Morfologia do Esperanto

3/Fevereiro/2008

Pessoal,

Segue meu trabalho final de morfologia.

Esperanto

Uma análise morfológica preliminar

Trabalho apresentado ao Prof. Dr. Paulo Chagas de Souza, como avaliação final do Curso de Morfologia.

I. INTRODUÇÃO

“Embora por alguns traços procure se afastar do modelo indo-europeu, também o Esperanto se apóia fundamentalmente nele, quer do ponto de vista lexical, quer sintaticamente.”

Umberto Eco

Este trabalho busca analisar brevemente a morfologia do Esperanto. O primeiro problema para nossa análise, do ponto de vista lingüístico, é o fato de comumente se acreditar que o Esperanto, por ser um idioma artificial, não possui falantes nativos. A ausência de falantes nativos dificulta – se não impossibilita – a análise do idioma. Isto se deve ao fato de não podermos dizer se determinada formação (seja ela fonológica, morfológica ou sintática) é ou não agramatical na língua estudada.

O site Ethnolongue, entretanto, estima dois milhões de falantes do Esperanto como segunda língua, além de uma população nativa cujas estimativas variam de duzentos a dois mil falantes. Seja qual for o número exato de pessoas que têm o Esperanto como língua materna, a existência de falantes nativos por si só garante à língua o direito de ser objeto de estudos lingüísticos.

O Esperanto é a única língua artificial que, no momento, obteve alguma espécie de sucesso. A principal característica que o distinguia das outras línguas artificiais era, para o criador do Esperanto, sua pobreza lexical. De acordo com Margarida Basílio “a razão fundamental para formarmos palavras é que seria muito difícil para nossa memória – além de pouco prático – captar e guardar formas diferentes para cada necessidade que temos de usar palavras em contextos e situações diversos.” (BASÍLIO, 2007: 12).

Ora, se alguém se propõe à tarefa de criar uma língua artificial – ainda que inspirado em características de um ou vários idiomas naturais – na busca de construir um idioma o mais acessível e simples possível, é de se esperar que esta pessoa tenha algumas precauções, mesmo que intuitivas. Uma delas é diminuir a quantidade de lexemas arbitrários, evitando que o futuro aprendiz invista grande quantidade de tempo memorizando vocabulário. O empobrecimento das raízes lexicais, no Esperanto, veio acompanhado de uma morfologia que busca ser suficientemente rica para compensar a redução de seu léxico. É precisamente este o ponto que justifica a escolha do Esperanto como objeto de nossa análise morfológica.

II. ANÁLISE

Aspectos da morfologia verbal:

As flexões verbais em Esperanto não marcam número e pessoa. Esta peculiaridade distancia o Esperanto dos idiomas indo-europeus[1] que foram a fonte inspiradora do idioma artificial.

Dados:

1

La patro amas siajn filojn.

La

patro

am-

-as

sia-

-j-

-n

filo-

-j-

-n

ART.DEF

PAI

AMAR

PRES.

PRON. REFL.

PL.

AC.

FILHO

PL.

AC.

O pai ama seus (próprios) filhos

2

Oni ne devus fari tion.

Oni

ne

dev-

-us

far-

-i

tio-

-n

PRON. IND.

NEG

DEVER

COND.

FAZER

INF.

PRON. DEM

AC.

A gente não deveria fazer isso.

3

La knaboj ludis tage

La

knabo-

-j

lud-

-is

tage

ART. DEF.

CRIANÇA

PL.

BRINCAR

PASS.

DE TARDE

AS crianças brincaram de tarde

4

Mi studos poste

Mi

stud-

-os

poste

1º SG

ESTUDAR

FUT.

DEPOIS

Eu estudarei depois

5

Vi iru kun lia frato!

Vi

ir-

-u

kun

lia

frato!

2º SG

IR

IMP.

COM

2º SG PRON POSS.

IRMÃO

Vá (você) com o irmão dele!

6

Ili mislernis la lecionon

Ili

mis-

-lern-

-is

la

leciono-

-n

3º PL

ERRADO

APRENDER

PASSADO

ART. DEF

LIÇÃO

AC.

Eles aprenderam errado a lição

7

Ili refaros ĝin

Ili

re-

-far-

-os

ĝi-

-n

3º PL

NOVAMENTE

FAZER

FUT.

PRON.

AC.

Eles a refarão!

8

La homo dronis

La

homo

dron

is

ART. DEF

HOMEM

AFOGAR

PASSADO

O homem afogou

9

Iu dronigis la homon

Iu

dron

ig

is

la

homo

n

PRON. INDEF.

AFOGAR

CAUSATIVO

PASS.

ART.DEF.

HOMEM

AC.

Alguém afogou o homem

Os morfemas flexionais de tempo e modo aparecem em negrito entre as frases 1 e 5:

· -i, para o infinitivo.
· -as, para o presente.
· -is, para o passado.
· -os, para o futuro.
· -us, para o condicional.
· -u, para o imperativo.

Os morfemas derivacionais que aparecem nos exemplos podem ser de dois tipos:

1. Prefixos com valor semântico (frases 6 e 7):

· re-, indica repetição.

· mis-, indica erro.

2. Sufixo causativo (frase 9):

· -ig-, formador de verbos causativos.

Os morfemas analisados são derivacionais porque formam novos verbos. No caso dos morfemas prefixais, os verbos são formados pela necessidade de alteração do sema do verbo original. O morfema sufixal -ig- marca, morfologicamente, a diferença de diátese existente entre as frases 8 e 9. Noutras palavras, se o verbo é causativo, isto é, se o falante deseja evidenciar o causador da ação, o morfema -ig- é utilizado. Em Português a diferença entre verbos causativos e não-causativos não é marcada morfologicamente:

“Ele abriu a janela” (causativo)

“A janela abriu” (não-causativo)

Línguas como o japonês também marcam sistematicamente a diferença entre verbos causativos e não causativos.

No que diz respeito às relações que o verbo estabelece com os argumentos, a marcação morfológica desta relação pode aparecer:

1. Apenas no núcleo (head-marking)

2. Apenas no elemento dependente do verbo (dependent-marking)

3. No núcleo e no elemento dependente.

Em Português, a marcação ocorre no núcleo:

Os homens viram o menino. head-marking

Em Latim, a marcação ocorria tanto no núcleo (verbo) como nos elementos dependentes (argumentos):

Uiri puerum uiderunt head-marking & dependent-marking

Em Esperanto, a marcação morfológica aparece apenas nos argumentos, como ocorre em Japonês e Norueguês:

La viro vidas la knabon dependent-marking

Otoko-no hito-ga kotom-o mita dependent-marking

Da pobreza morfológica do verbo surge, ainda, a necessidade de marcação morfológica do nome ou pronome que é argumento do verbo. Isto é, o Esperanto não admite sujeito nulo posto que sua morfologia verbal não permite ao falante inferir o sujeito da oração, diferentemente do que ocorre em Português.

Aspectos da morfologia nominal:

Diferentemente da morfologia verbal, que busca ser pobre para facilitar a memorização, a morfologia nominal do Esperanto é significativamente rica. Esta afirmação, para um não-lingüista, poderia levar a crer que a riqueza morfológica pode significar um dificultador no momento de aprendizagem da língua. O que ocorre, aparentemente, é o inverso. Enquanto no aprendizado de uma língua natural o estudante deve enfrentar a arbitrariedade lexical do idioma, no idioma artificial o número de itens lexicais (e, portanto, arbitrários) é reduzido; as lacunas lexicais são preenchidas a partir de processos morfológicos

Dados:

10

La bopatro amas la gefiletojn

La

bo-

-patr-

-o-

amas

la

ART. DEF

RESULTADO DE CASAMENTO

PAI

SUBST.

AMA

ART.DEF.

ge-

-fil-

-et-

-o-

-j-

-n

UNIÃO DE DOIS SEXOS

FILHO

DIM.

SUBST.

PLURAL

AC.

O sogro ama os filhinhos (homens e mulheres)

11

Ni iros al malsanulejo

Ni

iros

al

mal-

-san-

-ul-

-ej-

-o

1º PL

ir-FUT.

para

NEG

SAÚDE

PESSOA

LUGAR

SUBST.

“Nós vamos para o hospital”

12

Hitler estis fihomo

Hitler

estis

fi-

-hom-

-Ø-

-o

Hitler

foi

MÁ QUALIDADE

HOMEM

MASC.

SUBSTANTIVO

Hitler foi um homem ruim

13

Bela virino havas hundegon

Bel

-a

vir-

-in-

-o

havas

hund-

-eg-

-o-

-n

BELEZA

ADJ.

HOMEM

FEM.

SUBST.

TEM

CACHORRO

AUMENT.

SUBST.

AC.

Uma bela mulher tem um cachorro grande

14

La malnova domaĉo falis

La

mal-

-nov-

-a

dom-

-aĉ-

-o

falis

ART.DEF.

NEG

NOVO

ADJ.

CASA

MÁ QUALIDADE

SUBST.

CAIU

O velho casebre caiu

15

Kiu faligis la malnovajn domaĉojn?

Kiu

faligis

la

mal-

-nov-

-a-

-j-

-n

PRON. INT.

DERRUBOU

ART.DEF.

NEG

NOVO

ADJ.

PL.

AC.

dom

-aĉ-

-o-

-j-

-n

?

CASA

MÁ QUALIDADE

SUBST.

PL

AC.

?

Quem derrubou os velhos casebres?

16

Mi amas vin frate

Mi

amas

vi-

-n

frat-

-e

1º SG

AMAR-PRES.

2º SG

AC.

IRMÃO

ADV.

Eu te amo fraternalmente

17

Mi reiros hejmen

Mi

reiros

hejm-

-e-

-n

1º SD

VOLTAREI

CASA

ADV.

AC.

Eu voltarei para casa

As frases de 10 a 17 evidenciam, em primeiro lugar, que a morfologia nominal do Esperanto é concatenativa. Apesar de palavras compostas por um grande número de morfemas poderem dar a impressão de que a língua possui infixos realizados na raiz lexical, uma analise cuidadosa demonstra tratar-se de uma concatenação de prefixos e sufixos.

Tomemos como exemplo a formação da palavra ‘hospital’:

negação

tema de saúde

pessoa

lugar

substantivo

tradução

san

o

saúde

san

ul

o

sujeito são

mal

san

ul

o

sujeito doente

mal

san

ul

ej

o

hospital

Os morfemas nominais podem ser flexionais ou derivacionais.

Os morfemas flexionais se dividem em:

1. Morfema formador de plural (-j):

Ocorre em nomes e adjetivos, sempre um concordando com o outro. Os advérbios são invariáveis em relação a número.

2. Morfema de acusativo/locativo (-n):

Ocorre em nomes, adjetivos e advérbios de lugar, marcando morfologicamente o acusativo (no caso de nomes e adjetivos) e o locativo (no caso de advérbios de lugar.)

Os morfemas derivacionais foram divididos em dois grupos grupos:

1. Morfemas que distinguem classes de palavras:

· -o, forma substantivos

· -a, forma adjetivos

· -e, forma advérbios de modo e lugar

2. Morfemas que não distinguem classes de palavras:

a. Morfemas prefixais

Os morfemas prefixais derivam palavras gerando novos conceitos, dentre eles destacamos os prefixos:

· bo-, cria um lexema novo baseado em relações de casamento: patro, pai à bopatro, sogro.

· fi-, designa “de má qualidade” (apenas para substantivos [+ humanos])

· ge-, designa “união de dois sexos”: amiko, amigo à geamikoj, amigos e amigas

· mal-, formador de antônimos.

b. Morfemas sufixais:

Os morfemas sufixais também alteram as características semânticas dos vocábulos.

· -in, formador do feminino

· - Ø, formador do masculino

· -et, diminutivo

· -eg aumentativo

· -ej cria o sentido de “lugar onde”

· -ul, torna o substantivo [+ humano]

· - aĉ, cria o sentido de “de baixa qualidade” para substantivos com valor [-humano]

III. CONCLUSÃO

Esperamos ter demonstrado, neste trabalho, uma parte da morfologia verbal e nominal do Esperanto. Apesar de não esgotar o tema, buscamos averiguar os principais morfemas flexionais e derivacionais do Esperanto, analisando os mais importantes processos de formação de verbos, nomes, adjetivos e advérbios. Esperamos que, ao final do trabalho, fique mais visível ao leitor a influência – voluntária ou involuntária – exercida pelas línguas indo-européias na estrutura morfológica da língua. A influência de idiomas indo-europeus (principalmente no léxico), aliada à morfologia da língua certamente contribuiu para o relativo sucesso obtido por ela no último século.

Na página seguinte, anexamos um inventário dos morfemas analisados, este inventário possibilita verificar com mais clareza quais são os processos morfológicos envolvidos na formação de vocábulos verbais e não verbais. Possibilita, ainda, verificarmos a que classe pertence cada uma das palavras do Esperanto tendo em visa que a estrutura do inventário permite verificar formações agramaticais como *utilização de morfema de plural em verbos ou ainda *marcação de acusativo em advérbios de modo.

Morfemas analisados

IV. BIBLIOGRAFIA

BASÍLIO, M. Teoria Lexical, São Paulo, Ática, 2007.

BOOIJ, G. The Grammar of Words – An Introduction to Linguistic Morphology, Oxford Press, 2005.

ECO, U. A busca da língua perfeita, Bauru, Edusc, 2002.

FRANCINI, W. Esperanto sem antaŭjuĝoj, Rio de Janeiro, Cooperativa Cultural Esperantista, 1977.

HARTLEY, J. Aprenda sozinho Esperanto, São Paulo, Editora Pioneira,1967.

LORENZ, F.W. Esperanto sem mestre, São Paulo, FEB, 1988.

ROSA, M.C. Introdução à morfologia, São Paulo, Contexto.

http://www.ethnologue.com/show_language.asp?code=epo


[1] A exceção, entre as línguas indo-européias, fica por conta do Norueguês que também não faz marcações número-pessoais no verbo.