Pessoal,
Segue meu trabalho final de morfologia.
Esperanto
Uma análise morfológica preliminar
Trabalho apresentado ao Prof. Dr. Paulo Chagas de Souza, como avaliação final do Curso de Morfologia.
I. INTRODUÇÃO
“Embora por alguns traços procure se afastar do modelo indo-europeu, também o Esperanto se apóia fundamentalmente nele, quer do ponto de vista lexical, quer sintaticamente.”
Umberto Eco
Este trabalho busca analisar brevemente a morfologia do Esperanto. O primeiro problema para nossa análise, do ponto de vista lingüístico, é o fato de comumente se acreditar que o Esperanto, por ser um idioma artificial, não possui falantes nativos. A ausência de falantes nativos dificulta – se não impossibilita – a análise do idioma. Isto se deve ao fato de não podermos dizer se determinada formação (seja ela fonológica, morfológica ou sintática) é ou não agramatical na língua estudada.
O site Ethnolongue, entretanto, estima dois milhões de falantes do Esperanto como segunda língua, além de uma população nativa cujas estimativas variam de duzentos a dois mil falantes. Seja qual for o número exato de pessoas que têm o Esperanto como língua materna, a existência de falantes nativos por si só garante à língua o direito de ser objeto de estudos lingüísticos.
O Esperanto é a única língua artificial que, no momento, obteve alguma espécie de sucesso. A principal característica que o distinguia das outras línguas artificiais era, para o criador do Esperanto, sua pobreza lexical. De acordo com Margarida Basílio “a razão fundamental para formarmos palavras é que seria muito difícil para nossa memória – além de pouco prático – captar e guardar formas diferentes para cada necessidade que temos de usar palavras em contextos e situações diversos.” (BASÍLIO, 2007: 12).
Ora, se alguém se propõe à tarefa de criar uma língua artificial – ainda que inspirado em características de um ou vários idiomas naturais – na busca de construir um idioma o mais acessível e simples possível, é de se esperar que esta pessoa tenha algumas precauções, mesmo que intuitivas. Uma delas é diminuir a quantidade de lexemas arbitrários, evitando que o futuro aprendiz invista grande quantidade de tempo memorizando vocabulário. O empobrecimento das raízes lexicais, no Esperanto, veio acompanhado de uma morfologia que busca ser suficientemente rica para compensar a redução de seu léxico. É precisamente este o ponto que justifica a escolha do Esperanto como objeto de nossa análise morfológica.
II. ANÁLISE
Aspectos da morfologia verbal:
As flexões verbais em Esperanto não marcam número e pessoa. Esta peculiaridade distancia o Esperanto dos idiomas indo-europeus que foram a fonte inspiradora do idioma artificial.
Dados:
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1
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La patro amas siajn filojn.
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La
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patro
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am-
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-as
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sia-
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-j-
|
-n
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filo-
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-j-
|
-n
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ART.DEF
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PAI
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AMAR
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PRES.
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PRON. REFL.
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PL.
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AC.
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FILHO
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PL.
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AC.
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O pai ama seus (próprios) filhos
2
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Oni ne devus fari tion.
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Oni
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ne
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dev-
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-us
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far-
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-i
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tio-
|
-n
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PRON. IND.
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NEG
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DEVER
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COND.
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FAZER
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INF.
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PRON. DEM
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AC.
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A gente não deveria fazer isso.
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3
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La knaboj ludis tage
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La
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knabo-
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-j
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lud-
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-is
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tage
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ART. DEF.
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CRIANÇA
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PL.
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BRINCAR
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PASS.
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DE TARDE
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AS crianças brincaram de tarde
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4
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Mi studos poste
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Mi
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stud-
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-os
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poste
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1º SG
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ESTUDAR
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FUT.
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DEPOIS
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Eu estudarei depois
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5
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Vi iru kun lia frato!
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Vi
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ir-
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-u
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kun
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lia
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frato!
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2º SG
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IR
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IMP.
|
COM
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2º SG PRON POSS.
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IRMÃO
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Vá (você) com o irmão dele!
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6
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Ili mislernis la lecionon
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Ili
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mis-
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-lern-
|
-is
|
la
|
leciono-
|
-n
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3º PL
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ERRADO
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APRENDER
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PASSADO
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ART. DEF
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LIÇÃO
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AC.
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Eles aprenderam errado a lição
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7
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Ili refaros ĝin
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Ili
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re-
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-far-
|
-os
|
ĝi-
|
-n
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3º PL
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NOVAMENTE
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FAZER
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FUT.
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PRON.
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AC.
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|
Eles a refarão!
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8
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La homo dronis
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La
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homo
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dron
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is
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ART. DEF
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HOMEM
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AFOGAR
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PASSADO
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O homem afogou
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9
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Iu dronigis la homon
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Iu
|
dron
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ig
|
is
|
la
|
homo
|
n
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PRON. INDEF.
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AFOGAR
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CAUSATIVO
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PASS.
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ART.DEF.
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HOMEM
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AC.
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Alguém afogou o homem
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Os morfemas flexionais de tempo e modo aparecem em negrito entre as frases 1 e 5:
· -i, para o infinitivo.
· -as, para o presente.
· -is, para o passado.
· -os, para o futuro.
· -us, para o condicional.
· -u, para o imperativo.
Os morfemas derivacionais que aparecem nos exemplos podem ser de dois tipos:
1. Prefixos com valor semântico (frases 6 e 7):
· re-, indica repetição.
· mis-, indica erro.
2. Sufixo causativo (frase 9):
· -ig-, formador de verbos causativos.
Os morfemas analisados são derivacionais porque formam novos verbos. No caso dos morfemas prefixais, os verbos são formados pela necessidade de alteração do sema do verbo original. O morfema sufixal -ig- marca, morfologicamente, a diferença de diátese existente entre as frases 8 e 9. Noutras palavras, se o verbo é causativo, isto é, se o falante deseja evidenciar o causador da ação, o morfema -ig- é utilizado. Em Português a diferença entre verbos causativos e não-causativos não é marcada morfologicamente:
“Ele abriu a janela” (causativo)
“A janela abriu” (não-causativo)
Línguas como o japonês também marcam sistematicamente a diferença entre verbos causativos e não causativos.
No que diz respeito às relações que o verbo estabelece com os argumentos, a marcação morfológica desta relação pode aparecer:
1. Apenas no núcleo (head-marking)
2. Apenas no elemento dependente do verbo (dependent-marking)
3. No núcleo e no elemento dependente.
Em Português, a marcação ocorre no núcleo:
Os homens viram o menino. → head-marking
Em Latim, a marcação ocorria tanto no núcleo (verbo) como nos elementos dependentes (argumentos):
Uiri puerum uiderunt → head-marking & dependent-marking
Em Esperanto, a marcação morfológica aparece apenas nos argumentos, como ocorre em Japonês e Norueguês:
La viro vidas la knabon → dependent-marking
Otoko-no hito-ga kotom-o mita → dependent-marking
Da pobreza morfológica do verbo surge, ainda, a necessidade de marcação morfológica do nome ou pronome que é argumento do verbo. Isto é, o Esperanto não admite sujeito nulo posto que sua morfologia verbal não permite ao falante inferir o sujeito da oração, diferentemente do que ocorre em Português.
Aspectos da morfologia nominal:
Diferentemente da morfologia verbal, que busca ser pobre para facilitar a memorização, a morfologia nominal do Esperanto é significativamente rica. Esta afirmação, para um não-lingüista, poderia levar a crer que a riqueza morfológica pode significar um dificultador no momento de aprendizagem da língua. O que ocorre, aparentemente, é o inverso. Enquanto no aprendizado de uma língua natural o estudante deve enfrentar a arbitrariedade lexical do idioma, no idioma artificial o número de itens lexicais (e, portanto, arbitrários) é reduzido; as lacunas lexicais são preenchidas a partir de processos morfológicos
Dados:
10
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La bopatro amas la gefiletojn
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La
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bo-
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-patr-
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-o-
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amas
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la
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ART. DEF
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RESULTADO DE CASAMENTO
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PAI
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SUBST.
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AMA
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ART.DEF.
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ge-
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-fil-
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-et-
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-o-
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-j-
|
-n
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UNIÃO DE DOIS SEXOS
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FILHO
|
DIM.
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SUBST.
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PLURAL
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AC.
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O sogro ama os filhinhos (homens e mulheres)
11
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Ni iros al malsanulejo
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Ni
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iros
|
al
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mal-
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-san-
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-ul-
|
-ej-
|
-o
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1º PL
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ir-FUT.
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para
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NEG
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SAÚDE
|
PESSOA
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LUGAR
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SUBST.
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“Nós vamos para o hospital”
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12
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Hitler estis fihomo
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Hitler
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estis
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fi-
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-hom-
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-Ø-
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-o
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Hitler
|
foi
|
MÁ QUALIDADE
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HOMEM
|
MASC.
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SUBSTANTIVO
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Hitler foi um homem ruim
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13
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Bela virino havas hundegon
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Bel
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-a
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vir-
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-in-
|
-o
|
havas
|
hund-
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-eg-
|
-o-
|
-n
|
|
BELEZA
|
ADJ.
|
HOMEM
|
FEM.
|
SUBST.
|
TEM
|
CACHORRO
|
AUMENT.
|
SUBST.
|
AC.
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|
Uma bela mulher tem um cachorro grande
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14
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La malnova domaĉo falis
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La
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mal-
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-nov-
|
-a
|
dom-
|
-aĉ-
|
-o
|
falis
|
|
ART.DEF.
|
NEG
|
NOVO
|
ADJ.
|
CASA
|
MÁ QUALIDADE
|
SUBST.
|
CAIU
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O velho casebre caiu
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15
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Kiu faligis la malnovajn domaĉojn?
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|
Kiu
|
faligis
|
la
|
mal-
|
-nov-
|
-a-
|
-j-
|
-n
|
|
PRON. INT.
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DERRUBOU
|
ART.DEF.
|
NEG
|
NOVO
|
ADJ.
|
PL.
|
AC.
|
|
dom
|
-aĉ-
|
-o-
|
-j-
|
-n
|
?
|
|
CASA
|
MÁ QUALIDADE
|
SUBST.
|
PL
|
AC.
|
?
|
Quem derrubou os velhos casebres?
16
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Mi amas vin frate
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Mi
|
amas
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vi-
|
-n
|
frat-
|
-e
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1º SG
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AMAR-PRES.
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2º SG
|
AC.
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IRMÃO
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ADV.
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Eu te amo fraternalmente
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17
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Mi reiros hejmen
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Mi
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reiros
|
hejm-
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-e-
|
-n
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1º SD
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VOLTAREI
|
CASA
|
ADV.
|
AC.
|
|
Eu voltarei para casa
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As frases de 10 a 17 evidenciam, em primeiro lugar, que a morfologia nominal do Esperanto é concatenativa. Apesar de palavras compostas por um grande número de morfemas poderem dar a impressão de que a língua possui infixos realizados na raiz lexical, uma analise cuidadosa demonstra tratar-se de uma concatenação de prefixos e sufixos.
Tomemos como exemplo a formação da palavra ‘hospital’:
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negação
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tema de saúde
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pessoa
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lugar
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substantivo
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tradução
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san
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o
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saúde
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san
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ul
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o
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sujeito são
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mal
|
san
|
ul
|
|
o
|
sujeito doente
|
|
mal
|
san
|
ul
|
ej
|
o
|
hospital
|
Os morfemas nominais podem ser flexionais ou derivacionais.
Os morfemas flexionais se dividem em:
1. Morfema formador de plural (-j):
Ocorre em nomes e adjetivos, sempre um concordando com o outro. Os advérbios são invariáveis em relação a número.
2. Morfema de acusativo/locativo (-n):
Ocorre em nomes, adjetivos e advérbios de lugar, marcando morfologicamente o acusativo (no caso de nomes e adjetivos) e o locativo (no caso de advérbios de lugar.)
Os morfemas derivacionais foram divididos em dois grupos grupos:
1. Morfemas que distinguem classes de palavras:
· -o, forma substantivos
· -a, forma adjetivos
· -e, forma advérbios de modo e lugar
2. Morfemas que não distinguem classes de palavras:
a. Morfemas prefixais
Os morfemas prefixais derivam palavras gerando novos conceitos, dentre eles destacamos os prefixos:
· bo-, cria um lexema novo baseado em relações de casamento: patro, pai à bopatro, sogro.
· fi-, designa “de má qualidade” (apenas para substantivos [+ humanos])
· ge-, designa “união de dois sexos”: amiko, amigo à geamikoj, amigos e amigas
· mal-, formador de antônimos.
b. Morfemas sufixais:
Os morfemas sufixais também alteram as características semânticas dos vocábulos.
· -in, formador do feminino
· - Ø, formador do masculino
· -et, diminutivo
· -eg aumentativo
· -ej cria o sentido de “lugar onde”
· -ul, torna o substantivo [+ humano]
· - aĉ, cria o sentido de “de baixa qualidade” para substantivos com valor [-humano]
III. CONCLUSÃO
Esperamos ter demonstrado, neste trabalho, uma parte da morfologia verbal e nominal do Esperanto. Apesar de não esgotar o tema, buscamos averiguar os principais morfemas flexionais e derivacionais do Esperanto, analisando os mais importantes processos de formação de verbos, nomes, adjetivos e advérbios. Esperamos que, ao final do trabalho, fique mais visível ao leitor a influência – voluntária ou involuntária – exercida pelas línguas indo-européias na estrutura morfológica da língua. A influência de idiomas indo-europeus (principalmente no léxico), aliada à morfologia da língua certamente contribuiu para o relativo sucesso obtido por ela no último século.
Na página seguinte, anexamos um inventário dos morfemas analisados, este inventário possibilita verificar com mais clareza quais são os processos morfológicos envolvidos na formação de vocábulos verbais e não verbais. Possibilita, ainda, verificarmos a que classe pertence cada uma das palavras do Esperanto tendo em visa que a estrutura do inventário permite verificar formações agramaticais como *utilização de morfema de plural em verbos ou ainda *marcação de acusativo em advérbios de modo.

IV. BIBLIOGRAFIA
BASÍLIO, M. Teoria Lexical, São Paulo, Ática, 2007.
BOOIJ, G. The Grammar of Words – An Introduction to Linguistic Morphology, Oxford Press, 2005.
ECO, U. A busca da língua perfeita, Bauru, Edusc, 2002.
FRANCINI, W. Esperanto sem antaŭjuĝoj, Rio de Janeiro, Cooperativa Cultural Esperantista, 1977.
HARTLEY, J. Aprenda sozinho Esperanto, São Paulo, Editora Pioneira,1967.
LORENZ, F.W. Esperanto sem mestre, São Paulo, FEB, 1988.
ROSA, M.C. Introdução à morfologia, São Paulo, Contexto.
http://www.ethnologue.com/show_language.asp?code=epo